Paisagem - memória
Este projeto nasce de uma pesquisa em pintura a óleo que tem o Rio São Francisco como eixo poético e conceitual. Mais do que um elemento geográfico, o rio é compreendido como corpo vivo de memória, tempo e território. As obras emergem da vivência de suas margens, entendidas como superfícies simbólicas onde se acumulam processos naturais, históricos e afetivos.
A origem do trabalho está nesse território que atravessa diferentes momentos da trajetória do artista. Estar junto ao rio — ou imerso nele — é um gesto de ancoragem no presente e de escuta sensível da natureza, aproximando a experiência pictórica de um estado meditativo e espiritual. As margens mutantes e os ciclos contínuos do Velho Chico reverberam diretamente na construção das pinturas.
Em diálogo com o pensamento de Ailton Krenak e a noção de futuro ancestral, o rio é reconhecido como ente vivo e agente ativo na constituição dos modos de vida. Passado, presente e futuro coexistem como camadas interdependentes, e a pintura se torna meio de tradução sensível dessa temporalidade expandida.
As obras não buscam a representação literal da paisagem, mas a construção de uma “terceira margem”: um espaço subjetivo e suspenso no tempo, situado entre o vivido, o lembrado e o imaginado. Por meio da sobreposição de camadas de tinta, escorrimentos e gestos intensos, a materialidade da pintura opera como metáfora da memória, dos afetos e da espiritualidade.
Ao relacionar o São Francisco aos rios invisibilizados no contexto urbano, o projeto propõe uma reflexão sobre preservação ambiental e coexistência entre cidades e rios vivos. O Velho Chico torna-se, assim, espelho de uma questão global: sua permanência depende das escolhas feitas no presente. As pinturas assumem um duplo papel de contemplação e alerta, convidando o observador a um olhar atento sobre a paisagem, o território e a casa comum que habitamos.